01.07.2026
O sexto dia da Conferência da Rede Global de Escolas RSHM foi dedicado aos desafios que a inteligência artificial e o desenvolvimento tecnológico colocam aos nossos dias.
A Irmã Catherine Vincie guiou os presentes numa reflexão sobre “Inteligência Artificial e Ética Católica Romana”. Alertou para factos como: a tecnologia estar a evoluir mais rapidamente do que a capacidade da sociedade a compreender; as empresas de IA poderem não estar interessadas em regular-se a si próprias; a acumulação de riqueza poder ser colocada acima do bem da humanidade e a extração de minerais raros levantar sérias questões éticas. Acresce que a tecnologia beneficia alguns enquanto empobrece outros, o setor tecnológico apresentar desequilíbrios em termos raciais e de género e a IA poder ser usada para fins de vigilância por governos, empresas e forças militares. No seu entender "temos de preservar o projeto humano, bem como a dimensão religiosa e espiritual das nossas vidas, enquanto trabalhamos com a IA."
Durante a sua intervenção destacou, ainda, que neste contexto o ser humano tem responsabilidade ética nas escolhas que faz e que as mesmas podem gerar impactos positivos ou negativos na sociedade. Efetivamente, a tecnologia pode ser usada ao serviço da pessoa humana, do bem comum e da justiça social, mas também pode aumentar as desigualdades entre quem tem dinheiro e acesso a ela e os mais vulneráveis.
“Humanizar o Digital - Tecnologias Digitais, Inteligência Artificial e Espiritualidade”, foi o foco da intervenção de Octávio Carmo, jornalista Agência Ecclesia. Na sua intervenção lembrou que “quando se confunde o cálculo probabilístico com a verdade ontológica, a sociedade corre o risco de atribuir à máquina uma autoridade que esta não possui, resultando num fenómeno de ‘alucinações’ algorítmicas e na propagação sistemática de preconceitos presentes na base de dados”. Clarificar, também, que “o pensamento católico exige uma desmistificação da ‘verdade probabilística’ e a rejeição do título de verdadeira ‘inteligência’ atribuído a estes sistemas que devem ser perspetivados, apenas como ferramentas avançadas de compilação”.
Perante este cenário, perguntou aos educadores presentes se queriam liderar ou resistir, uma vez que a escola atual se “depara com a urgência de conceber um projeto educativo inovador” e contrariar o “perigo de um esvaziamento cognitivo estrutural”. No seu entender urge que “os educadores se ergam como ‘coreógrafos da esperança’. Perante a avalanche técnica, a pergunta que deve ecoar nas salas de aula não é ‘o que esta máquina consegue fazer?’, mas sim ‘que tipo de pessoas desejamos nós formar para este mundo?’ “.
Octávio Carmo terminou dizendo que “a missão educativa e pastoral precisa de mulheres e homens capazes de integrar a IA sem entregar a ela o que pertence ao coração humano: a presença, o cuidado, o discernimento.”
Na última intervenção do dia, intitulada “Desenvolvimento Tecnológico - Capacitação para uma Educação Transformadora”, Marco Bento, Professor na Escola Superior de Educação de Coimbra, abordou o potencial da inteligência artificial na educação. Citou a possibilidade de tradução e personalização do conteúdo, em tempo real, considerando as características de cada aluno e a possibilidade de libertar o professor para que tenha mais tempo com os alunos. Destacou que na função de educar, o essencial permanece, pois só o humano pode olhar nos olhos e saber o que cada aluno precisa.
Para Marco Bento a IA não substitui o professor, mas pode ampliar o seu alcance. “Não se trata de substituição, mas de simbiose. A IA identifica os padrões, enquanto o Humano define o propósito”. Humanos têm empatia, consideram as subjetividades e atribuem significado. Na era da inteligência artificial, o professor é um curador de conteúdo e precisa estimular os alunos a fazerem boas perguntas, concluiu.